CAMUS - Luiza Novaes.

Camus.


“ Faz lembrar esses artistas que conhecem seus limites, nunca e, no intervalo precário onde seu espírito se instala, possuem a maravilhosa facilidade dos mestres. E está justamente aí o gênio: a inteligência que conhece suas fronteiras.”
 Mito de sísifo, pág.84
Camus

Camus começa seu ensaio sobre Kafka, denominado por ele como: A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka, pensando na necessidade que Kafka deixa para o leitor de releitura da obra, ao menos duas vezes, por que o autor pensa na possibilidade da dupla interpretação senão mais outras.

O que podemos discutir de acordo com a pista que Camus deixa é o que ocorreria se tentássemos explicar detalhadamente a obra de Kafka poderíamos cometer um engano, só somos capazes de restituir o movimento e não traduzir tudo, literalmente. O que um autor é capaz de pensar de sua própria obra, não podemos tentar desvendar, uma vez que ela mesmo tem movimento.

A dificuldade que temos de percorrer a obra de Kafka é a naturalidade que a perpassa, se em alguns escritos é natural para o leitor o decorrer da história, a peculiaridade de Kafka, é transformar em natural para o personagem a narrativa que lhe está ocorrendo, por mais absurda que aparente para o leitor a sucessão dos fatos. Existe dessa forma uma distância entre a estranheza da vida e a simplicidade da aceitação frente a esses eventos por parte do personagem.

O que Camus chama de paradoxo perpétuo, poderíamos entender como o poder de expressar o vazio em gestos cotidianos com a força de traduzir uma eterna ambição. A ética que podemos enxergar em Kafka, é a lucidez de seu estudo, produto de um assombro de normalidade ao viver situações impensáveis em uma realidade comum, sem quase nenhum esforço a ser transmitido pelo próprio personagem, mas nunca resignado.

São paradoxos e contradições que poderíamos decorrer de acordo com Camus incansavelmente, vacilações perpétuas, natural e extraordinário, indivíduo e universal, trágico e cotidiano, absurdo e lógico.

Esse símbolo faz parte de dois mundos o das idéias e ao mesmo tempo as sensações, como um dicionário que pode tocar tanto no racional quanto no sensível, Camus diz que enveredar por esse tipo de interpretação na obra de Kafka, é necessário, para compreender os caminhos secretos da obra.

“ Os grandes problemas estão na rua”
Nietzsche

O lugar comum da literatura transforma-se assim na condição humana, no absurdo fundamental dessa existência e em sua grandeza, na rua e no infinito? O absurdo é que a alma desse corpo o ultrapasse tão desmedidamente diz Camus, dando vida a um jogo de contrastes paralelos, o trágico é o cotidiano e a única lógica torna-se o absurdo. Se o personagem é comedido o horror é sem tamanho. Evitar ser um trágico personagem é não exagerá-lo, a revolta também dirige-se a Deus, as grandes revoluções são metafísicas como podemos concluir.

Assim como o destino do mitos como por exemplo o de Édipo que é sempre dado de antemão, você já sabe ou já prevê o que vai ocorrer com o personagem, todo esforço, de explicar o sistema lógico da trama, é a própria dedução que irá consumar a própria desgraça que irá pairar.

O anúncio a priori do destino, é pregação inverosímil, não condiz a realidade, mas se a trama for desfeita e desvendada, saberemos ao certo o que é o horror da vida, do cotidiano, da realidade, no pensar isto é possível. 

O coração humano tem a odiosa tendência a só chamar de destino aquilo que o esmaga, conclui Camus, mas a felicidade também necessita de explicação, por que é inevitável. Mas tudo que desconhecemos, por sermos modernos, nos auto atribuímos o mérito. A tradução que Kafka concebe é a do problema na ação, um pequeno artifício próprio de um grande escritor. O efeito do absurdo é o excesso de lógica.

Kafka introduz também a noção de esperança, Camus descreve O processo um método científico sem conclusão, um diagnóstico, e O castelo, o tratamento, onde o remédio não cura, só reintegra a doença à vida normal. Também liga a vida de Kafka a obra no intuito do escritor de colocar o nome de seus personagens de K. não é ele, no entanto é, sua indissolúvel conclusão, pode ser todos e qualquer um, um europeu mediano, mas também uma entidade, mas uma pista a ser solucionada.

O fracasso na obra de Kafka, também é um recomeço, não se tratando de lógica, e sim de perseverança, pensemos alguns exemplos, seja em O castelo onde o personagem fracassa a cada capítulo, ou a eterna necessidade de Gregor em se adaptar a vida de sua família mesmo sendo uma barata, ainda que sua preocupação real, com plena noção de sua situação de barata, seja a da decepção de seu chefe  por seu novo formato.

Os segredos especiais da melancolia de Kafka, que poderia nos remeter a nostalgia de Olga, dos paraísos perdidos de Proust “ Torno-me muito melancólica”, nos lembra Camus. “Provavelmente” é a linha que gira toda a obra de Kafka, é sempre provável, mas não importa, uma vez que a busca do eterno é meticulosamente inspirada. A imagem que Camus acredita representar a obra de Kafka é a de que os personagens do que seríamos se estivéssemos privados das nossas distrações, e totalmente entregues às humilhações do divino.

Provocamos risadas aos deuses, somos parte de uma camada de seres melancólicos, sem muito poder frente ao nosso próprio destino, e vivendo um cotidiano absurdo, resumindo, a submissão ao cotidiano é quase uma ética, necessária para sermos aceitos nesse sistema, tentando o tempo todo nos livrar desse preceito de sermos estrangeiros em nós mesmos e nos outros. O salto que a princípio parece ser a princípio uma doutrina, ou um erro, de que as decisões e tudo vem de cima, esse em cima, não se trata somente de burocracia, ou de vontade, e sim de Deus.

A verdade é contrária a moral, pois se pensa numa lógica que não existe no sistema de valores que estamos pensando, encontramos com o divino à partir da compreensão do que negamos, e não de reconhecer a graça ou a presteza do divino, mas sua carga de horror, indiferença e ódio.

Quanto mais trágica a obra de Kafka, diz Camus, mais provocante a esperança, quanto mais absurdo o salto, mais comovente e ilegítimo, paradoxo básico do pensamento existencial do autor. “Eles abraçam o Deus que os devora” Camus explica que todo escritor que compreende desemboca num grito desesperado de esperança, por meio da humildade, pois como essa existência é absurda, somente acreditando em outra existência pode-se iniciar a pensar em uma saída.

A maior esperança é a de escapar dessa condição humana. Existe uma marca da lucidez que encerra-se em si mesma ou a renuncia, mas é necessário que o orgulho acabe para que a salvação seja completada.

Evitar o subterfúgio, é a missão de Kafka, mesmo que o final do processo leve a submeter o universo inteiro a um veredicto, fazer questão de esperar nossas sentenças pessoais.





 
 
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