BENJAMIN: KAFKA A PROPÓSITO DO 10º ANIVERSÁRIO DE SUA MORTE - Luiza Novaes.
Benjamin: Kafka a propósito do 10º aniversário de sua morte.
Benjamin inicia o ensaio, nos contando uma anedota sobre a depressão de um czar, Potemkin, e a burocracia do acúmulo de papéis uma vez que o responsável não os assinava. A simplicidade e a facilidade que um dos funcionários arranjou para a empreitada tão complexa aos olhos dos chanceleres, de fazer o czar assinar os papéis, para ele, Chuvalkin, era viável.
Sem grandes pretensões entrou no quarto do czar, deu-lhe uma caneta, e Potemkin assinou a pilha de documentos que o funcionário entregou, feliz com seu serviço, leva os documentos aos conselheiros que petrificados percebem que todos os papéis estão realmente assinados, mas com o nome do Chuvalkin.
Benjamin diz que se compreendermos o enigma dessa charada, seremos capazes de compreender Kafka, o mundo dos arquivos, das chancelarias, das salas mofadas, e decadentes, é o mundo literário de Kafka, e comparando os diversos poderes, subalternos, e de elevada posição, mas decadente, os compara a descendentes de Atlas, com a missão de sustentar o globo terrestre.
Mas a o mesmo tempo, não poderia ser o globo, pois a cotidiano, já é suficientemente pesado. Lukács diz que para construir uma mesa, necessitamos um Miguel Ângelo, em períodos históricos, mas pra construirmos um mundo cósmico, diz Benjamin necessitamos de Kafka.
Nos gestos mais insignificantes o homem explica o movimento cósmico ou o realiza, as mãos que para Kafka são verdadeiros pilões a vapor, é a forma como entramos em contato com conhecimentos poderosos, de movimentos rápido ou devagar, para cima ou para baixo.
Kafka para explicar a relação de um filho com o pai, de acordo com Benjamin, precisa pôr em movimento períodos cósmicos inteiros, para a relação ser imemorial. Acredita ainda que exista ligações reais entre o mundo dos funcionários e o mundo do pai, o pai é quem pune, a autoridade em geral é responsável por essa função.
O mundo sujo, desprezível, degradado, é o mundo dos funcionários, e do uniforme do pai, a imundice, é atributo de parasitas, que para permitir o indivíduo de sua sobrevivência provoca essa sujeira, forças da razão da humanidade nas palavras de Benjamin.
Em a Metamorfose, o pai vive às custas do filho, reproduzindo a imundice, consumindo-o como um parasita, consome seu direito de existir, o pai pune, mas também acusa, o pecado do filho, é como um pecado original, na queixa constante, de ser vítima contra o pecado que está sendo acusado.
Trata-se então de um eterno problema, pois é uma acusação pecaminosa, pendente mas não falsa, a ambigüidade é que no mundo primitivo as leis não são escritas, mas no mundo moderno mesmo elas sendo, será que não podemos não saber quais são as leis e transgredi-las, mais parece obra do destino ocasionar nessa queda de valores.
Kafka, experimenta a sensação de estar perdido, nos demonstra Benjamin, num país outro, num outro corpo, num outro animal, e a beleza aparece nos locais mais bizarros, adere aos corpos, nem por castigo, nem por culpa, por exemplo em um acusado, uma prostituta, nunca pode ser bela.
Kafka descreve em uma das passagens de O processo, um senhor que está subindo as escadas sem saber seu crime, vendo os diversos rostos de crianças, que são belas, mas ao mesmo tempo atrapalham seu caminho e pensa que poderia ter bala para as crianças ou uma bengala pra afastá-las, ambos objetos teriam a mesma utilidade, nessa frieza quente que explica bem o tipo de ser humano que Kafka compreende, Benjamin utiliza a noção de desesperança, como o tipo de personagem descrito como belo na galeria dos personagens kafkianos.
Benjamin, descrevendo uma passagem de fala de Max Brod, conta que Kafka, dizia que os homens eram pensamentos niilistas e suicidas na cabeça de Deus, um demiurgo perverso e o mundo seu pecado original, no pior de seus dias de humor, e termina dizendo que não há esperanças para nós.
Já podemos imaginar um contraponto da perspectiva de Camus com a descrição que segue Benjamin, com ou sem esperança, a fé é debatida de maneira a decifrar um pedaço importante do que pensa Kafka. Os mensageiros que Benjamin pensa de Kafka, são homens comuns que circulam entre os outros, não são estranhos, assemelham-se a Barnabás, brinca Franz, também um mensageiro, dizendo um pouco mais dessa espécie, que para ele e seus semelhantes inacabados, toscos, ainda existe esperança...condenados.
Benjamin pensa ser impossível falar em mundo mítico na obra de Kafka, uma vez que não podemos discutir ordens e hierarquias, o mundo mítico é mais jovem, uma vez que busca libertação. Como as criaturas e personagens kafkianos não tem contornos ou limites, não existe intercâmbio com o mal X bem, não há consumo de tempo, imaturidade, ou não esgotamento, e ao mesmo tempo no início e fim de uma longa jornada, “Kafka não cedeu à sedução do mítico”?
É onde podemos pensar no jejuador, ele sim tem tempo específico, ou está no fim ou no começo de sua jornada, há temporalidade na narrativa, há um consumo de tempo os dias vão passando e esquecem de trocar a tábua explicando quantos dias se passaram, há uma não mudança no humor do personagem que admite não estar esgotado, e sim disposto a permanecer como estava, em jejum, e sua imaturidade se encontra no fato de só perceber seu real valor e significado no fim da sua vida, quando está esvaindo no ar.
E então Benjamin coloca Odisseu, no limite do mito, e do conto de fadas, a astúcia misturada com a razão seriam os ingredientes que transformaram seus poderes invencíveis, dando fórmula ao estratagema mítico.
“Kafka escreveu contos para espíritos dialéticos, quando se propôs a narrar sagas. Introduziu pequenos truques nesses contos e deles extraiu a prova de que “mesmo os meios insuficientes e até infantis podem ser úteis para a salvação.”
Pág. 143
Benjamin - Kafka
E a explicação que Benjamin nos dá da astúcia de Odisseu descrita por Kafka, em as sereias e seu silêncio, é que mesmo que o nosso herói tenha percebido o silêncio, utilizou na forma de tradição esse estratagema contra os deuses e contra as próprias sereias.
A racionalidade e o sensível não está colocado nessa conclusão de Benjamin, a própria lógica do corpo, tão valiosa pra o autor do absurdo e da beleza do pensar a mudança, de todo o modo de pensar absurdo, não somente na inversão e na esperteza de seus atores, mas de outra luz de enfoque.
Benjamin deixa uma indicação de necessidade de iluminar os contos menores de Kafka, para conseguirmos entender melhor os significados, os gestos, “o teatro é o lugar dessas experiências” precisamos então entender de ação de natureza cênica, e assim como a campainha que avisa que o espetáculo vai começar, os gestos exagerados dos personagens de Kafka nos ensinam a explicá-los, um a um, um drama a ser entendido.
As parábolas de Kafka para Benjamin devem ser utilizadas no seu carácter didático e não de maneira literal, ma são dobras e desdobra de sentido e significado, como descreve a metáfora do papel e da dobradura de papel em formato de barco, trechos dessas parábolas servem de resíduo da doutrina que transmitem.
“Trata-se da questão de organização da vida e do trabalho na comunidade humana.”
Pág. 148
Benjamin
É que ao pensarmos nas parábolas ela tem essa função organizadora, e também em seus livros e outros escritos, achar o limite entre os homens comuns e os imperadores, inquisidores, transforma mais um enigma da obra de Kafka e a inclusão a uma outra espécie de ser, os limites vão ficando claros.
Benjamin coloca que Kafka também não resistiu as tentações do misticismo, e que o autor toma precauções para dificultar as interpretações possíveis a sua obra, e aconselha aos leitores a tomarem cuidado ao tatear as obras de Franz, precisamos também pensar em seu testamento, e devem ser examinadas com o cuidado das respostas do guardião do “Diante da Lei”. Walter deixa uma minuciosa metáfora, ao descrever que os leitores que se aventurarem a interpretar a obra de Kafka, podem recorrer aos mesmos critérios de contratação de um ator, uma vez que a obra de Franz é um teatro do mundo, pode parecer óbvio a indicação de talento, mas que no final eles interpretam a si mesmos, mas que não sejam o que representam.
O país de Kafka, é o exílio, o que movimenta seu mundo, de acordo com Benjamin, por isso ele nunca cedeu a tentação de fundar uma religião, é somente o movimento do ar da aldeia, impuro, putrefato, com coisas que amadureceram demais, ele respira essa atmosfera, e não pensa em religião.
Benjamin também se preocupa em criticar as interpretações que levam a pensar o lado psicanalítico, e o lado teológico, as chamando de sobre naturais, analisando que a leitura natural deve ser a escolhida para um grande autor interprete de Kafka. A ligação com a filosofia de Kierkegaard ou de Pascal deve ser dispensada, por que a agitação e a perturbação que poderiam causar ao divino silêncio, é uma posição cômoda, mas insustentável. Essa posição de funcionalidade de cargos, ao buscar a autoridade superior, e a comparação com a base levaria a esse tipo de visão.
A contra justificativa para argumentar com essa leitura divina, é que nos personagens de Kafka, a autoridade e administração só eram capazes de julgar e não perdoar, o que seria de incumbência divina. O espelho que deve ser enxergado, é a culpa, necessário para entender que o processo é de experiência de vida, vida primitiva, e a punição não está na sentença, do processo, e sim no próprio processo de viver.
A epopéia de Kafka na voz de Benjamin, era exatamente adiar o que estava por vir, ao descrever um pedaço da bíblia conta da providência de deixar a casa em ordem, mas não de deixá-la pronta, ordem, é indispensável, é obrigação. As suas parábolas deveriam ser destruídas, de acordo com testamento, que deve ser considerado para Benjamin, como uma não satisfação perante a obra que estaria aos olhos do autor fadada ao fracasso. E a grandiosidade de Kafka para Benjamin, é a capacidade de não construir imagens, “como se a vergonha devesse sobreviver” a pureza dos sentimentos.
Volta a lógica do obedecer a períodos cósmicos, obedecendo a família, Kafka, como Sísifo compara rola seu rochedo, não é agradável, mas é responsável por descrever a história, ter a fé do que vai acontecer não significa que realmente aconteceu, senão não seria necessária a fé.
Kafka, parte de um balanço e das experiências que inspiram desse movimento constante, que como brinca o autor lhe causam enjôo, e uma experiência pode levá-lo a experimentar uma outra completamente oposta. É ao mesmo tempo como se não houvesse nada de novo que pudesse experimentar esses personagens, a descrição traz a eles a completa normalidade dos fatos e derivações do que ocorre em suas vidas.
O esquecimento na obra de Kafka, nunca é individual, esquecer tem ligação com o mundo primitivo, antigas regras, cambiantes para formar novos patamares segundo Benjamin, para existir tudo tem de estar isolado, e ser uma única realidade. Dentre os animais que também são personagens isolados na obra de Kafka, Benjamin cita “Artista da Fome” apenas um obstáculo à estribaria...o mataburro, no caminho da passagem, onde você precisaria se defrontar com uma segunda realidade.
A culpa enigmática que percorre as obras do autor, não podemos deixar de pensar que eles são fim em si, mas sim que sem eles nada seria possível, como o símbolo das representações pela leitura de Benjamin. O pensamento é formado a partir da confusão, oscila de uma preocupação à outra, saboreando a inconstância e o desespero. De todos os seres de Kafka, os que mais refletem são os animais, como demonstração da corrupção do mundo da lei, a angústia e o desespero são os únicos sentimentos possíveis.
O momento que Benjamin enxerga como esperança é exatamente a estranheza que Kafka carregava em suas estranhas, como no sentimento de sentir-se no eterno exílio, o próprio corpo é o estrangeiro, encontrando as referências como algo insuportável, a regra como a exceção, e vice versa. O sótão é um local metáfora que exemplifica tantos outros retratados pelo autor, e ao descrevê-los são como espaços que o esquecido é largado, mas que em algum momento teremos de encarar os fantasmas que por lá permaneceram por nós trancados.
O estado de esquecimento é sempre deformado, pela nossa própria percepção. Sejam à partir das características físicas dos personagens ou da própria incapacidade de modificar a situação que se encontra, o parasita de si e dos outros. Não é da Teologia existencial que lhe atribuem, nem do pressentimento mítico, que pressupõem que parte a análise de Benjamin, tentando a todo momento rebater algumas idéias, se Kafka rezava ou não, não podemos afirmar dentro de sua análise toda e qualquer criatura era incluída, germânico de espaço, disse de seu tempo, nasceu num solo judeu, é isso que podemos dizer e analisar de alguma forma.
As possíveis deformações que o texto em discussão analisa, são as que possivelmente um Messias algum dia será capaz de corrigir, as do tempo de Kafka, e de seu espaço, ao buscar uma vida que não a realidade normal, faz de deu desejo, um eterno imprevisto, e fuga, trocando-os por sua realização. Esquecer é se redimir, as regras da ascese são claras, esquecer para manter acordado o que não somos possibilitados de fazer, quando dormimos não podemos manter a virtude, “o artista jejua, o guardião da porta silencia e os estudantes velam.”
A busca do nada é o desafio, é a busca incessante de procurar uma perfeição que supostamente não existe, seja através de talhar a pedra tosca até seu último brilho essencial, o estudo até a perfeição da sabedoria, a atenção dos atores e de suas deixas para proclamar o sentimento mais próximo do real.
A própria existência é estudo para alienação dos homens entre si, o gesto perdido, o esforço quase comparado a Hércules, para realizar obras ou viver vidas que não fazem parte do reconhecimento da própria voz, quando o homem percebe, se entende, é jogado com força tremenda, nessa tempestade de percepções que não lhe pertencem.
“É da justiça que parte a crítica do mito” Kraft
A porta da justiça é estudo, é quando aprendemos do que estamos falando em particular das pessoas, e de nós, velocidade desenfreada e passo épico e o ajuste que Benjamin proclama a Kafka, se realmente a lei é perfeita, é por que é digna de diversas interpretações, não acredito que seja diferente com a obra do autor.
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| QUATRO PORTUGUESES CONHECENDO HILDA. |
O texto abaixo foi enviado por um grupo de música erudita português que inicia trabalho com poemas de Hilda. Ficamos muito contentes de ver que a obra de Hilda, cada vez mais, emociona leitores por todo o mundo. |
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Em janeiro de 2009, será inaugurado o Centro Cultural Brasil - República Dominicana, da Embaixada do Brasil em São Domingos. Além da Biblioteca Hilda Hilst |
| COMO UMA BREJEIRA ESCOLIASTA - J.L. Mora Fuentes. |
Surgindo como resposta ao convite do editor Wilson Marini, os textos são lúcida irreverência, humor e crítica impiedosa das mofinezas humanas, bem como da comiseração pela fragilidade e desatinos da espécie. Aliando prosa e poesia para estampar o absurdo que partilhamos na matéria, a inquietante Hilda bombardeou, durante 62 contundentes semanas, a tradicional sociedade campinense com questionamentos essenciais... |
| O FENÔMENO HARRY POTTER E O NOSSO TEMPO EM MUTAÇÃO - Nelly Novaes Coelho. |
Sucesso inusitado que, evidentemente, vem suscitando uma avalanche de críticas, pró e contra esse “enfeitiçamento” dos leitores, causado por esses volumosos livros, com suas centenas de páginas cobertas de letras, frases longas, nomes difíceis e... sem ilustrações. E isso, em plena Era da Imagem |
| POR UM CANCIONEIRO VÍVIDO - Edson Tobinaga. |
...flauta, trompa, viola, violoncelo... Esta é a seqüência de timbres por que passeia a linha melódica da introdução da pequena grande obra-prima que é a Canção do Amor Demais de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, presente no memorável disco homônimo de 1958. |
| HILDA HILST: A MORTE E SEU DUPLO - Cristiane Grando. |
“Lego-te os dentes./ Em ouro, esmalte e marfim.” Muito além da imagem de um rosto deslumbrante, Hilda Hilst legou-nos suas obras, mais de 40, publicadas, de 1950 a 1995, em versos que foram se tornando cada vez mais complexos |
| HILDA HILST POR JORGE COLI. |
“Qual a boa metáfora para descrevê-la: uma pluma? Uma flor delicada que, por milagre, anda? Um cristal frágil? Sua voz faz-se carícia tímida. Para onde foi a Hilda Hilst desbocada, de tom enérgico, manejando palavrões que abalaram bem-educados e bem pensantes?(...)" |
| CAMUS - Luiza Novaes. |
Camus começa seu ensaio sobre Kafka, denominado por ele como: A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka, pensando na necessidade que Kafka deixa para o leitor de releitura da obra, ao menos duas vezes, por que o autor pensa na possibilidade da dupla interpretação senão mais outras. |
| ROBERTO MATTA: "O SOL PARA QUEM SABE CONGREGAR" - Leo Lobos (Tradução de Geruza Zelnys de Almeida). |
Nascido no Chile em 11 de 11 de 1911, formou-se arquiteto aos 22 anos e partiu para a Europa onde trabalhou no projeto “cidade radiante” com o pintor, arquiteto e teórico franco-suíço Le Corbusier (1887-1965). Ao final de 1934 visitou a Espanha, onde conhece, na casa de seus tios diplomatas, o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) e os poetas espanhóis Rafael Alberti (1902-1999), e Federico García Lorca (1898-1936). |
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