Como toda grande poesia (a que se faz voz de um eu interior centrado em si mesmo e ali buscando resposta para o Enigma da Vida) a de Hilda Hilst (1934-2004) expressa em seu suceder as transformações de seu tempo. Ou melhor, algumas das interrogações mais radicais da contemporaneidade:
Uma, de caráter humano (psíquico-sociológico) que corresponde à busca empreendida pela Mulher, no encalço de sua própria imagem e de seu novo lugar no mundo, através do amor.
Outra de essência filosófico/metafísica, que se processa no âmbito das relações Homem/Divindade e tenta redescobrir a condição humana, as forças terrestres e a própria Morte, como elementos essenciais da própria Divindade (Deus, Princípio Primeiro, Absoluto, Mistério cósmico, Vida...).
Poeta, dramaturga e ficcionista, tríplice (e rara) conjugação de forças criadoras, a paulista Hilda Hilst (1930-2004), através de quase meio século de criação, consagrou se como uma das personalidades mais completas e instigantes da Literatura Brasileira contemporânea. Acompanhar seu surgimento e seu evoluir nesse longo e fecundo percurso é ver confirmada a “sintonia” de sua criação com as forças renovadoras que, sob múltiplas formas, vêm provocando a transformação do mundo.
Desde as primeiras horas, o mistério da Poesia e do Amor foram os pólos imantados que atrairam a invenção de sua palavra. Mas o interrogar tal mistério vai se alterando ou se ampliando em círculos cada vez mais largos, à medida em que a poeta verticaliza e aprofunda a sondagem de sua palavra. Do interrogar atento e lírico (voltado para os seres e cosias que tocam o eu-poético) seus poemas vão radicalizando o interrogar e se concentrando mais no eu, no ser-que-interroga.
Há uma diferença essencial entre o primeiro e o último interrogar: aquela que vai do eu que se vê em distância, com que de fora, procurando se conhecer objetivamente, e a de um eu que se assume por dentro, força ou luz que existe e irrompe fulgurante.
Em seus inícios (1959) pressionada pelo tumulto interior do Amor e da Poesia, que a faziam sentir-se dividida ou dúplice, a poeta diz:
É meu este poema ou é de outra? / Sou eu esta mulher que anda comigo / e renova a minha fala e ao meu ouvido / Se não fala de amor, logo se cala? Sou eu que a mim me persigo / Ou é a mulher e a rosa que escondidas / (Para que seja eterno o meu castigo) / Lançam vozes na noite tão ouvidas?
Anos depois (1979), assumindo-se na plenitude de ser Mulher/Poeta (aquela que está “no princípio”, sempre e sempre), encara com desassombro a última grande Aventura da Vida (a que virá com a Morte) e confirma sua “verdade” descoberta:
Me cobrirão de estopa / Junco, palha. / Farão de minhas canções / Um oco, anônima mortalha / E eu continuarei buscando / O Frêmito da palavra. / E continuarei / Ainda que os teus passos / De cobalto / Estrôncio / Patas hirtas / Devam me preceder. /
Em alguma parte / Morte, serrado, vastidão / E Nada. / Eu estarei ali / Com minha canção de sal.
Vislumbrado, afinal, o eu obscuro/luminoso que é ela própria, Mulher/Poeta, sente que a resposta para os demais enigmas que a vida lhe propõe, virá a partir da resposta que esse eu radical lhe der.
A Confluência de forças na poesia brasileira nos anos 50
Pode-se dizer que o silêncio era a presença mais forte que se impunha aos poetas, nos anos 50 (período da Guerra Fria, quando parecia que já não havia mais nada a dizer ou que nada mais importava). O que não significa que se calaram. Na verdade, de mil modos, falaram sobre o não-falar ou sobre a inutilidade da fala. E o que Carlos Drummond (vindo de outros tempos, mas sempre sensível ao instante-em-trânsito) diz a Orfeu; em Canto Orfíco (1953)
Tua medida, o silêncio o cinge e quase a insculpe, braços do não-saber. Ó fabuloso, mundo paralítico surdo nato incógnito na raiz da manhã que tarda,
/.../
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa atmosfera do verso antes do canto, do verso universo, latejante no primeiro silêncio, promessa de homem, contorno ainda improvável de deuses a nascer.
Sem ter nada de “drummondiana”, mas simplesmente sofrendo a pressão das mesmas forças, Hilda Hilst vai no encalço desse “verso antes do canto”, “latejante no primeiro silêncio, promessa de homem”. Em meio a muitas dúvidas e com uma nítida certeza, ela diz:
O não dizer é o que inflama / E a boca sem movimento / É o que torna o pensamento / Lume / Cardume / Chama.
Dessa chama, está iluminada a poesia de Roteiro de Silêncio (1959), em cujo título já se enunciava a atitude mais válida, naquele momento de caos e decepções profundas em todo o mundo. Não era, porém, o silêncio total que se impunha, mas apenas o do eu lírico, confessional, como o diz o título das cinco elegias que abrem o volume: “É tempo de parar as confidências”
Teus esgares / Teus gritos / Quem os entende?
E mais adiante, a resolução:
E foi assim que o poeta / Assombrado com as ausências / Resolveu: / Fazer parte da paisagem / E repensar convivências.
E desse repensar vai surgindo o inventário da crise em curso. Dividida entre o apelo do eu intimista, confessional e o apelo realista do mundo objetivo, onde a vida se decide, a poeta procura fugir da dor de Saber e de Pensar, seguindo o caminho sugerido por Fernando Pessoa-Caeiro ( o genial poeta português que nesses anos 50 começava a ser descoberto pela poesia brasileira...). Procurando uma solução para o impasse, a poeta se volta para a natureza, para os animais, aspirando diluir-se no estágio anterior à consciência crítica que faz sofrer.
Não te espantes da vontade / Do poeta / Em transmudar-se: / Quero e queria ser boi / Ser flor / Ser paisagem.
Longe de ser uma mera fantasia bucólica, esse desejo de transmutação revela a ânsia de retorno ao natural, ao simples, ao espontâneo... que o espírito crítico impede, ao homem civilizado, de fruir com plenitude. Há nessa ânsia de retorno, um evidente cansaço de pensamento reflexivo. Mas, ao contrário de Pessoa, / que queria ser “simples como uma flor”, mas ter consciência dessa simplicidade / (como se isso fosse possível, sem perdê-la...), Hilda Hilst quer apenas
Ter olhos claros, ausentes / Sem o saber ser contente / De ser boi, ser flor, paisagem.
Mas a solução não estava ali, naquela simplicidade desejada, mas no Amor:
É tempo para dizer / Se prefiro o teu amor / Àqueles, aos doces ares Da minha campina em flor. / .../ Tu, bem o sei, me pressentes. / E mais ainda, me vês / Tão perto do querer ser / Deste amor sempre contente.
É na essência camoniana do Amor Puro e Absoluto, que vai ser buscada a solução de vida e poesia plenas. Na sequência dos “Sonetos que não são” e na “Do Amor contente muito descontente”, de intencional conotação camoniana ou trovadoresca, se expressa a ambiguidade de reações da mulher que, ao amar, se liberta dos tabus castradores e, ao mesmo tempo, se sente frustrada pelo que deixou de ser, quando optou:
Aflição de ser eu e não ser outra / Aflição de não ser, amor, aquela Que muitas filhas te deu, casou donzela / E à noite se preparou e se adivinha / Objeto de amor, atenta e bela.
/.../
Aflição de não ser a grande ilha / Que te retém e não te desespera. (A noite como fera se avizinha).
Aflição de ser água em meio à terra / E ter a face conturbada e móvel. / E a um só tempo múltipla e imóvel / Não saber se se ausenta ou se te espera.
Em metáforas quase transparentes, aí fala a mulher dividida entre o desejo de ser a “esposa” (presença estável, refúgio, proteção, mãe-geradora-de-vida que prolonga o amado no tempo...) e o impulso apaixonado de ser a “outra” (a mobilidade da paixão, a Aventura existencial, a voragem do prazer, onde o eu como que explode em plenitude e por instantes o Momento se identifica com a Eternidade). Terra e água, os elementos primordiais da criação do mundo, são as metáforas que Hilda Hilst toma dos versos de Péricles Eugênio da Silva Ramos (um dos poetas mais representativos da Poesia-45 brasileira): “Aflição de ser terra / Em meio às águas”. Glosando-as, no soneto em questão, a poeta inverte os termos: sente-se “água em meio à terra”. Inversão significativa que, alguns anos depois, será desfeita, pois a poeta vai-se afirmar como “terra”.
A Tarefa do Poeta
Ode Fragmentária (1961) reflete a preocupação com a nova palavra poética que as vanguardas estavam reivindicando nos anos 60. Daí o contínuo refletir sobre a tarefa do poeta e o lugar da poesia e do amor no mundo de incertezas e buscas que continuava a desafiar o homem.
A noite não consente a veleidade / De retomar na memória e no tempo / O tempo em que eu senhora de vaidades / Dissipava no verso o meu lamento /
/.../
Tempo não é, senhora, de alvoradas.
A indagação sobre sua tarefa de poeta está presente do primeiro ao último verso desta Ode Fragmentária, onde a invenção poética e amor se conjugam na incansável busca que ali se inscreve.
A mesma problemática prossegue nos poemas densos de Sete Cantos para o Anjo (1962), agora, porém, concentrada no ser dúplice que é o poeta. A presença de Rilke começa a se fazer sentir em sua palavra poética. A epígrafe de Jorge de Lima já aponta para o cerne de pensamento que aí se afirma: Nunca fui senão uma coisa híbrida / Metade céu, metade terra, / Com a lua de Mira-Celi dentro das duas órbitas.” E Hilda Hilst inicia o “Canto Primeiro” indicando abertamente sua identificação com seus companheiros de canto (Jorge de Lima e Rilke).
Se algum irmão de sangue (de poesia) / Mago de duplas cores no seu manto / Testemunhou seu anjo em muitas cantos / Eu, de alma tão sofrida de inocências / O meu não cantaria?
E a poeta dialoga com seu “anjo”, com o ser obscuro/luminoso que vive dentro dela ou com ela se confunde:
Desde sempre caminho entre dois mundos / Mas a tua face é aquela onde me via / Onde me sei agora desdobrada. /.../ E por que me escolheste? / Em direções menores me plasmei. /.../ E entendia / Que era preciso falar de uma ciência / Uma estranha alquimia:
O homem é só. Mas constelar na essência. / Seu sangue em ouro se transmuta. / Na pedra ressuscita. / No mercúrio se eleva. /
Aí se enuncia a força primeira que dinamiza a poesia de Hilda Hilst e que vai se fazer cada vez mais perceptível em seu canto: interrogar o homem “constelar na essência” e sua incessante transmutação; descobrir sua “verdade secreta”, aqui e agora...É a partir desse impulso primeiro, que tudo o mais adquire sua verdadeira significação nessa poesia que se faz cada vez mais densa e tensa.
O Inventário-marco: a consciência terrestre e a experiência religiosa
Importante marco na produção poética de Hilda Hilst, Trajetória Poética do Ser (1963/1966), representa um verdadeiro inventário dos caminhos e descaminhos percorridos (e a percorrer) pela poeta.
Divididos em quatro unidades (Passeio – Memória – Odes Maiores ao pai e Iniciação do Poeta), os poemas aqui reunidos têm ainda, como motivo polarizados, a dialética do ser mulher/poeta em tensão que se aprofunda,. Porque abarca também a força dos seres e das coisas terrenas. Força essa que a Poesia deve revelar em sua verdade oculta. Do contínuo corpo-a-corpo entre a voz que canta e o ser obscuro/luminoso onde se gera o canto, é que partem os outros motivos essenciais dessa poesia: a grandeza da tarefa poética (dando voz às experiências de vida, que adentram a área do indizível); a função mediadora da poesia (re-ligando o homem contemporâneo, prisioneiro da civilização da técnica, aos impulsos primitivos ou naturais do espírito, que lhe permitirão a vivência autêntica) e, principalmente, o aprofundamento da consciência terrestre rilkeana (que deverá redescobrir o homem a si mesmo). Esse aprofundamento se liga, visivelmente, à presença estuante do grego Kazantzaki, a que Hilda Hilst dedica o livro: À memória de Nikos Kazantzaki, que me fortaleceu em amor. Oferenda que completa a seguir por uma verdadeira “profissão de fé”: Em ti, terra, descansei a boca, a mesma que aos outros deu de si o sopro da palavra e seu poder de amar e destruir.
Amplia-se e aprofunda-se a consciência terrestre que Hilda Hilst havia assumido até aqui em sua identificação espontânea com o pensamento rilkeano e com o misticismo religioso que o fundamenta. De agora em diante, comunga também com o avassalante sentimento-de-mundo de Kazantzaki. Ilumina-se em sua poesia o pano de fundo da tortuosa/luminosa/efêmera vida terrena que alcança ou participa da eterna divindade. Adensa-se o seu sentimento religioso do mundo, alimentado cada vez mais pela idéia de que “os deuses morrem, mas a divindade é imortal.” (Kazantzaki, Carta a Grego).
Pode-se dizer que o verdadeiro motivo polarizador da poesia hilstiana, a partir de A Trajetória Poética do Ser, é a nova experiência religiosa que busca Deus nas coisas terrestres. Uma interrogação radical é provocada por essa nova experiência religiosa, que tenta re-descobrir a religião no sentido original da palavra re-ligio: a re-ligação do homem ao universo cósmico/divino do qual foi separada ao nascer. Interrogação radical, porque envolve num mesmo fenômeno a idéia da divindade, do universo, do “homem decaído”, de seu lugar no mundo e de seu poder de criação.
Lenta será minha voz e sua longa canção / Lentamente se adensam as águas / Porque um todo de terra em mim se alarga /
/.../
A face do meu Deus iluminou-se / E sendo Um só, é múltiplo Seu rosto.
A multiplicidade na Unidade é um dos vetores da busca em que se empenha esta poesia. Fecundadas por essa agônica busca do Conhecimento desse novo Homem e esse novo Deus, as palavras do poeta se empapam de enigmas. Trajetória Poética do Ser constitui, pois, um momento de vivência e reflexão. Ser terra / E cantar livremente / O que é finitude / e o que perdura.
“terra”, matéria/espaço primordial, onde a vida se cumpre, e de cuja resistência a poesia está investida. “Terra” sempre pronta para receber a semente, mas que só com o convívio da “água” se cumprirá em fecundidade. É nesse sentido que se entende a ordem ao poeta:
Despe-te das palavras e te aquece. / Toma nas mãos esses odres de terra / E como quem passeia, leva-os ao mar. /.../ Deita-te depois e vibra tua garganta / Como se fosse o início de um cantar.
A poesia de Hilda Hilst se confirma como “voz” ou “testemunho” da vida concreta/finita, vivida com paixão e intensidade raras, porque existe a certeza de um além para lá do concreto-e-do-finito, onde as raízes se perdem e onde tudo encontrará sua justificação final.
Do “homem da queda” para o novo Deus
O entranhado sentimento de busca de Deus é outro aspecto que aproxima a poeta brasileira do grego Kazantzaki. Em A Trajetória Poética do Ser. Hilda Hilst parte do Deus do Velho Testamento (aquele que condenou o homem à queda), para em seguida acenar para um novo Deus:
Nosso Deus era um Todo inalterável, mudo / E mesmo assim mantido. Nosso pranto / Continuadamente sem ser ouvido / Porque não é missão da divindade / Testemunhar o pranto e o regozijo. / O que esperais de um Deus? / Ele espera dos homens que O mantenham vivo. (grifos nossos)
Dá-se aí uma importante inversão: Deus é que espera manter-se vivo através do homem
O Deus de que vos falo / Não é um Deus de afagos. /; É mudo. Está só. E sabe / Da grandeza do homem / (Da vileza também) / E no tempo contempla / O ser que assim se fez. /.../ E podereis amá-lo / Se eu vos disser serena / Sem cuidados, / Que a comoção divina / Contemplando se faz?
Não é um Deus luminoso, esse. É muito mais terrível e necessário, do que iluminado e acolhedor...mas uma nova grandeza imensa e inquietante é nele presentida, e buscada pela poeta, através das forças vivas terrestres. É essa idéia básica que identifica também a produção ficcional ou teatral de Hilda Hilst, com a “obra do oitavo dia” de que fala o filósofo místico, Berdiaev, ao chamar a atenção para a obra de criação a ser feita, em nosso século, pelo homem. E que transformará antiga idéia do Homem nascendo em Deus na idéia de Deus nascendo no Homem. Da mesma forma que o místico Angelus Silésius dizia: Sei que sem mim Deus não pode viver nem um instante. Como diz Berdiaev:
...se a obra de redenção e de salvação pode passar sem a criação (humana), para o Reino de Deus, a ação criadora do homem é indispensável. /.../ A criação humana continua a criação do mundo: Deus obrando com o homem, o homem obrando com Deus. /.../ O segredo supremo da humanidade é o nascimento do homem. Mas o segredo divino supremo, é o nascimento do homem em Deus.” (in Le Sens de Création. 1955)
A idéia desse Deus e a do obscuro luminoso processo da criação poética se fundem no húmus desta Trajetória Poética do Ser:
Estou no centro escuro de todas as coisas / Mas a visão é larga / Como um grito que se abrisse e abrangesse o mar.
O volume encerra-se em abertura plena para o devir que trará, efetivamente, uma incrível amplidão de formas literárias e de sondagens cada vez mais fundas no Real e no Mistério que nele se oculta.
A Busca de novos caminhos
De 1967 a 1974, a voz hilstiana praticamente silencia. Período de fermentação criadora, em que se engendra a ficcionista e a dramaturga, ambas em busca de novas linguagens e novos caminhos de criação. É quando escreve a labiríntica ficção de Fluxofloema (1970) e Qadós (1977 ); e leva à encenação os insólitos espetáculos de A Possessa e O Verdugo.
Nessa produção ficcional ou teatral, de absoluta originalidade, Hilda Hilst rompe o círculo mágico de seu próprio eu, tal com vinha se manifestado na Poesia, para lançar-se na voragem do Eu/Outro, em face do Enigma (da Existência, da Morte, de Deus, da Sexualidade, da Finitude, da Eternidade...)
Da Sexualidade para o Erotismo
Seu retorno à poesia se faz com Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974). Entre esta e a da primeira fase há uma evidente distância: não de valor ou natureza, mas de intensidade. Todos os problemas, então cantados, voltam aqui com uma outra densidade.
O erotismo (uma das forças mais importantes na ficção e no teatro hilstiano) é aqui o nervo central. É na evolução da sexualidade, (presente em sua poesia inicial), para o erotismo, que se coloca o problema da Mulher, tal como vem sendo colocado em nossos tempos: ela se redescobrindo, como princípio, expansão e duração do homem. É como se, concentrando-se cada vez mais sobre seu próprio eu, a Mulher fosse, paradoxalmente, se descobrindo cada vez mais extensa e multiforme.
Dentro do círculo / Faço-me extensa / Procuro o centro / Me distendendo. / Túlio não sabe / Que o amor se move / No seu de dentro / E me procura / Movente, móvil / No lá de fora.
Essa descoberta da plenitude sexual no “de dentro”, contraposta ao “lá de fora”, corresponde, em essência, ao que D. H. Lawrence afirmava, quando dizia:
Houve demasiada ação no passado, especialmente ação sexual, uma repetição tão monótona e fatigante sem nenhum desenvolvimento paralelo no pensamento e na compreensão. Atualmente nossa tarefa é compreender a sexualidade. Hoje em dia, a compreensão plenamente consciente do instinto sexual importa mais do que o ato sexual. (apud Foucault, História da da Sexualidade) (grifos nossos)
Escravar o instinto sexual em toda sua significação para a expansão plena do ser, é o que se faz presente na poesia fremente de Júbilo Memória Noviciado da Paixão.
No plano do pensamento criador, instinto sexual já não é visto como limitado a uma função orgânica específica, independente das demais opções ou atos da existência cotidiana. Mas como algo infinitamente mais vasto e profundo, do que aquilo que se entende vulgarmente por função sexual.
O motivo polarizador de toda a poesia que aí se represa é o Erotismo, no alto sentido filosófico do termo: “a experiência da comunhão plena eu-outro” que, partindo do corpo atinge as raízes metafísicas do ser e o faz sentir-se participante da Totalidade.
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca / Austera. Toma-me AGORA, ANTES / Antes que a carnadura se desfaça em sangue. /
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... . . . .
Tempo do corpo este tempo, da fome / Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento, / Um sol de diamante alimentando o ventre, / O leite da tua carne, a minha /Fugidia. / E sobre nós este tempo futuro urdindo / Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida / A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo / Te descobres vivo sob um jugo novo.
Como uma sacerdotiza a cumprir um ritual, a Mulher exorta o Homem à união, segura da verdade e essencialidade da experiência amorosa que lhe oferece. Da primeira á última página, Júbilo Memória Noviciado da Paixão é um chamamento erótico, na mais alta significação do termo. A partir de uma situação comum, das mais encontradiças desde as “Cantigas de Amigo” (a da amante que fala ao amado distante), essa poesia assume a dimensão de uma experiência-limite definitiva. Nela, há uma funda consciência do “princípio feminino” que se expressa no apelo feito a Túlio (o amado ausente):
Olha-me de novo. Porque esta noite / Olhei-me mim, como se tu me olhasses. / E era como se a água / Desejasse / Escapar de sua casa que é o rio / E deslisando apenas, sem tocar a margem./ Te olhei. E há tanto tempo / Entendo que sou terra. Há tanto tempo / Espero / Que o teu corpo de água mais fraterno / Se estenda sobre o meu.
Através dos símbolos “água” (princípio masculino, fecundador) e “terra” (elemento feminino a ser fecundado), denuncia-se, nessa poesia, a frustração do processo vital, em sua necessária continuidade, porque o amado se recusa à sua tarefa, “deslisando, sem tocar a margem”. Entretanto, a Mulher o espera, como “terra” que é, elemento humano/cósmico a ser fecundado para cumprir sua tarefa de continuadora do humano. Elemento fixo, durável refúgio e estímulo.
Mas não só Mulher. O eu-poético, sendo confluência de dois instintos, o da Mulher e o do Poeta, oscila entre a permanência da “terra” e a mutabilidade da “água”.
Na última parte de Júbilo Memória..., “Poemas aos Homens do nosso Tempo”, o caminho e a força dos poetas se reafirma: da intencionalidade ético/existencial se abre para a política:
Senhoras e senhores, olhai-nos. / Repensamos a tarefa de pensar o mundo. / E quando a noite vem / Vem a contrafacção dos nossos rostos / Rosto perigoso, rosto-pensamento / Sobre os vossos atos. /
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . .. . . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . . . . . ..
A Idéia, meus senhores/ Essa é mais brilhosa / Do que o brilho fugaz de vossas botas.
. . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . .. . . . . . ..
...Todos vós, políticos / Que palavra / Além de ouro e treva / Fica em vossos ouvidos? / Além de vossa RAPACIDADE / O que sabeis / Da alma dos homens?
Reafirma-se a eterna tarefa dos poetas: “Pensar o mundo” e não pactuar nunca com qualquer forma de Poder arbitrário que aprisione ou esmague a liberdade de pensar, falar e agir de todos os homens. Nos poemas finais, reafirma-se a nova confiança do escritor (poeta, ficcionista, dramaturgo, crítico) no valor de sua escrita, como elemento decisivo no processo de transformação que o nosso tempo está sofrendo .
.. . . . . .. . . . . . . . . . .Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque, / Não está no comício, não deseja riqueza / Não barganha, sabe que o ouro é sangue / Tem os olhos no espírito do homem / No possível infinito. Sabe de cada um / A própria fome. E porque é assim, eu te peço: / Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta / O homem está vivo. (grifos nossos)
Daí a certeza de que a aparente fragilidade da palavra poética (ou da idéia que nela vive) é muito mais forte e resistente do que o Poder organizado que contra ela se levante.
Amada vida: / Que essa garra de ferro / Imensa / Que apunhala a palavra / Se afaste / Da boca dos poetas. Pássaro-Palavra / Livre / Volúpia de Ser Asa / Na minha boca.
. . . . . . . . . . . . . . .. . . .. . .. . . . .. . .. . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..
Em Da Morte: Odes Mínimas (1979), Hilda Hilst Mantém um incisivo e desafiante diálogo com a Morte, enfrentada cara a acara, como a grande Realidade que permanece tão misteriosa para os homens, como o era na origem dos tempos:
Te batizar de novo. / Te nomear num trançado de teias / E ao invés de Morte / Te chamar Insana / Fulva / Feixe de flautas / Calha / Candeia / Palma, por que não?
Diante do seu mistério, o que impede de que seja pressentida em outras formas? Anulando toda a possível distância entre si mesma e a Morte, a poeta torna extremamente familiar a temerosa figura, mostrando-a, ao mesmo tempo, essencialmente participante da Vida.
Te sei. Em vida / Provei teu gosto. / Perdas, partidas / Memória, pó / Com a boca viva provei / Teu gosto, teu sumo grosso / Em vida, morte, te sei. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . ... Juntas. Tu e eu / Duas adagas / Cortando o mesmo céu. / Dois cascos / Sofrendo as águas. / E as mesmas perguntas.
Empenhada, durante alguns anos, em experiências paranormais (gravações que captam vozes, supostamente de mortos, vindas em ondas hertzianas), Hilda Hilst transmitiu à sua poesia um à vontade em presença da Morte que, sem dúvida, resultava de uma intuição que mais e mais se difunde em nossos tempos: a de que o homem está presente a re-descobrir sua alma e, com ela, descobrir que a Morte é apenas uma mudança de estado, uma nova forma de Vida, ainda desconhecida.
Em entrevista concedida a Léo Gilson Ribeiro, acerca de suas experiências paranormais, a poeta diz:
...eu acho que a morte é a única situação transcendente do homem, a problemática mais importante do homem /.../ Há vinte anos leio, medito, penso sobre o Homem, a Morte, o Ódio, etc. Daí achei, não sei, acho que minha criação literária e minhas fitas coincidem num ponto: na urgência de comunicar ao outro: “Você é imortal, não receie a morte, em sua imortalidade cada um de nós preservará a sua individualidade, não é aquela dissolução do eu no Nirvanra, como prega o Budismo.” De modo que quero chamar a atenção, por meio da literatura e das minhas experiências psíquicas para o inadiável: a premência de reproporem as tarefas prioritárias do homem.” (in O Estado de SP, 18/04/1977)
Poeta da estirpe dos visionários e os incendiados pela Paixão do Viver e do Conhecer, Hilda Hilst permanecerá viva entre as mais altas vozes poéticas, que se entregaram à sondagem do Oculto. Sua criação (poética, ficcional ou teatral) se teceu sempre em busca do além-aparências, ou na redescoberta do absoluto, do sagrado ou do amor, -noções e vivências que, como sabemos, se perderam ou se deterioraram em nosso tempo-em-mutação. Mas sem as quais, o ser humano jamais se revelará, em plenitude, a si mesmo.