QUATRO PORTUGUESES CONHECENDO HILDA.

O texto abaixo foi enviado por um grupo de música erudita português que inicia trabalho com poemas de Hilda. Ficamos muito contentes de ver que a obra de Hilda, cada vez mais, emociona leitores por todo o mundo.


Quatro portugueses conhecendo Hilda
Ana Maria Miranda, Eduardo Soares, Eduarda Freitas e Luís Filipe Santos.

 

Momentos


Gosto de me segurar ao sorriso de um longo amigo, que há muitos anos me contou – assegurou - que existem poemas para todos os momentos da nossa vida. Lembro-me muito bem desse dia, das cores, dos cheiros, da luz. Da luz sobre o Tejo. Lisboa. Lembro-me que senti nas palavras dele a certeza de muitas partidas, de muitas viagens dentro e fora da pele, de muitas buscas pelos poemas que iriam – e estão – a escrever a minha vida.

Partindo, encontrando-me, aos poucos, fui parar a muita gente. Especial. Muito especial. Pelo caminho, recente, os sorrisos do Daniel e da Teresa entraram na minha caixinha de surpresas. Em Cuba, aprendi um bocadinho do Brasil. Brincámos com as palavras seguradas no ritmo das ancas, com o samba que a Teresa jurava saber e que o Daniel garantia que não... As conversas! Tantas… entre o meu pequeno-almoço e o café da manhã nas gargalhadas dos meus amigos brasileiros, entre as nossas históricas diferenças e semelhanças, o riso feliz de quem se deixa ir pelos dias. E entre as palavras e o calor que se tatuava na pele, também Hilda. De mansinho, sem se impor, umas quantas histórias, os cães da Casa do Sol. Pouco mais. A promessa imensa de ler e ficar a conhecer. A Fundação, o sentido para as coisas, o traço forte, o vermelho da vida…

No regresso a Portugal, a euforia de criar. Num atropelo de vontades, compartilho com o Luís (que há-de voltar a entrar e a fazer música nesta história). Dou-me em frases, afirmo-lhe ao mesmo tempo que lhe pergunto e lhe peço «vamos fazer isto, vamos fazer aquilo!». Recebo o portal da Hilda Hilst e um sorriso quente do outro lado do oceano. Leio, cheia de gula, para ter a certeza que os sentimentos são universais. Escolho um. É imediato. «Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.»

Delicio-me nas entrelinhas. Ofereço-o como papel de embrulho para um presente que nunca chegaria – nem chegará - a fazer parte do meu tempo real. Mas outros chegaram. Um, foi feito de tantos amigos, que choro de carinho por dentro de uma noite feliz. Do Brasil, o Daniel e a Teresa enviaram-me uma carta e um poema de Hilda «para festejar seu aniversário, Eduarda».

« (…) Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?
Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada de ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.»

E tanta coisa por dizer. Tanta coisa a sentir.

E tantos momentos a serem selados com poesia. Hilda faz parte. Entre as páginas de um livro, dois poemas entregues em mão, em mãos frias. «Se te pareço imperfeita e nocturna, olha-me de novo. Porque esta noite, olhei-me a mim, como se tu me olhasses, e era como se a água, desejasse sair de sua casa que é o rio, e deslizando apenas, nem tocar a margem». É dos que mais gosto. Já o sabia por dentro, mesmo antes de lhe conhecer as palavras.

Gosto do silêncio que fica depois dele.

Fico até ao fim, mas já não estou ali.

Reajusto as vontades.

Desaperto-me do abraço que já não era.

Sorrio porque gosto muito de ver os flocos de neve a caírem sobre a serra e porque há qualquer coisa de agreste no Inverno que me faz sentir quente. Não há razões para não me vestir de letras. Cá dentro, escrevo-me. Lembro-me do meu Amigo. «Há sempre um poema para todos os momentos da nossa vida». Pois há.

 

Eduarda Freitas
Vila Real, Janeiro de 2009. Portugal.





 
 
HILDA HILST É HOMENAGEADA COM SÉRIE DE EVENTOS GRATUITOS.
”Hilda Hilst O Espírito da Coisa”, espetáculo em cartaz no Teatro do Centro da Terra, programou uma série de atividades gratuitas como forma de homenagear a grande escritora brasileira, falecida há 5 anos. O projeto “Hilda Hilst O Espírito da Coisa” inclui exposição homônima, oficinas, palestras, ciclo de filmes, apresentações únicas de outras peças teatrais e leituras dramáticas.
 
Biblioteca Hilda Hilst na República Dominicana!
Em janeiro de 2009, será inaugurado o Centro Cultural Brasil - República Dominicana, da Embaixada do Brasil em São Domingos. Além da Biblioteca Hilda Hilst
 
COMO UMA BREJEIRA ESCOLIASTA - J.L. Mora Fuentes.
Surgindo como resposta ao convite do editor Wilson Marini, os textos são lúcida irreverência, humor e crítica impiedosa das mofinezas humanas, bem como da comiseração pela fragilidade e desatinos da espécie. Aliando prosa e poesia para estampar o absurdo que partilhamos na matéria, a inquietante Hilda bombardeou, durante 62 contundentes semanas, a tradicional sociedade campinense com questionamentos essenciais...
 
O FENÔMENO HARRY POTTER E O NOSSO TEMPO EM MUTAÇÃO - Nelly Novaes Coelho.
Sucesso inusitado que, evidentemente, vem suscitando uma avalanche de críticas, pró e contra esse “enfeitiçamento” dos leitores, causado por esses volumosos livros, com suas centenas de páginas cobertas de letras, frases longas, nomes difíceis  e... sem ilustrações. E isso, em plena Era da Imagem
 
POR UM CANCIONEIRO VÍVIDO - Edson Tobinaga.
...flauta, trompa, viola, violoncelo... Esta é a seqüência de timbres por que passeia a linha melódica da introdução da pequena grande obra-prima que é a Canção do Amor Demais de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, presente no memorável disco homônimo de 1958.
 
HILDA HILST: A MORTE E SEU DUPLO - Cristiane Grando.
“Lego-te os dentes./ Em ouro, esmalte e marfim.” Muito além da imagem de um rosto deslumbrante, Hilda Hilst legou-nos suas obras, mais de 40, publicadas, de 1950 a 1995, em versos que foram se tornando cada vez mais complexos
 
HILDA HILST POR JORGE COLI.
“Qual a boa metáfora para descrevê-la: uma pluma? Uma flor delicada que, por milagre, anda? Um cristal frágil? Sua voz faz-se carícia tímida. Para onde foi a Hilda Hilst desbocada, de tom enérgico, manejando palavrões que abalaram bem-educados e bem pensantes?(...)"
 
BENJAMIN: KAFKA A PROPÓSITO DO 10º ANIVERSÁRIO DE SUA MORTE - Luiza Novaes.
Benjamin inicia o ensaio, nos contando uma anedota sobre a depressão de um czar, Potemkin, e a burocracia do acúmulo de papéis uma vez que o responsável não os assinava. A simplicidade e a facilidade que um dos funcionários arranjou para a empreitada tão complexa aos olhos dos chanceleres, de fazer o czar assinar os papéis, para ele, Chuvalkin, era viável.
 
CAMUS - Luiza Novaes.
Camus começa seu ensaio sobre Kafka, denominado por ele como: A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka, pensando na necessidade que Kafka deixa para o leitor de releitura da obra, ao menos duas vezes, por que o autor pensa na possibilidade da dupla interpretação senão mais outras.
 
ROBERTO MATTA: "O SOL PARA QUEM SABE CONGREGAR" - Leo Lobos (Tradução de Geruza Zelnys de Almeida).
Nascido no Chile em 11 de 11 de 1911, formou-se arquiteto aos 22 anos e partiu para a Europa onde trabalhou no projeto “cidade radiante” com o pintor, arquiteto e teórico franco-suíço Le Corbusier (1887-1965). Ao final de 1934 visitou a Espanha, onde conhece, na casa de seus tios diplomatas, o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) e os poetas espanhóis Rafael Alberti (1902-1999), e Federico García Lorca (1898-1936).
 


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